A pandemia como oportunidade de crescimento
Há um mês atrás caminhava por Florença – quando a pandemia ainda estava no início e as pessoas ainda podiam circular livremente pelas ruas desta cidade deslumbrante – e observei como o comportamento social fosse profundamente alterado.
Os meios de comunicação já tinham iniciado a bombardear a população com constantes notícias assustadoras sobre o coronavírus e o pavor já era omnipresente na consciência coletiva. Surpreendido, notei como as pessoas estavam mais presentes, mais vivas. Tínhamos voltado a guardar-nos nos olhos, a viver no momento atual, a estar atentos ao ambiente que nos circundava.
Era-me evidente que esse incremento do nível de atenção se devia ao medo de contrair o novo vírus o que nos tornava hipervígeis em relação ao nosso meio, como estratégia inconsciente para nos mantermos em segurança. Mas, otimista como sou, não pude deixar de reconhecer os contornos positivos nesta mudança de atitude. Pela primeira vez, em muito tempo, sentia que a comunidade estava alerta. Cada um de nós bem centrados no aqui e agora, em contato com as próprias emoções e intimamente conscientes da presença do outro.
Tínhamos perdido os nossos comportamento egocêntricos tão presentes no nosso quotidiano. Não desviar o olhar do ecrã do smartphone ou ouvir música fixando o horizonte, se antes eram uma constante quando viajavas nos meios públicos, agora todos se observavam procurando sinais de uma possível contaminação nos demais.

A crise suspendeu os nossos automatismos e obrigou-nos a uma reavaliação, que preferíamos continuar a adiar, dos nossos valores pessoais. Qualquer moda, sensibilidade, prioridades, ideologia ou visão do mundo que cada um possuía antes do início desta pandemia foi radicalmente transformada. A suspensão do nosso quotidiano e o isolamento social, impôs-nos a uma reflexão forçada sobre a nossa vida e estas interrogações privadas contêm em si propriedades generativas.
Viver uma crise pode ser genuinamente formativo. Quem passa por dificuldades ou por traumas, enfrenta momentos de angústia e de incerteza, mas é a elaboração destas circunstâncias que nos conduz ao crescimento mental.
Bion, um proeminente teórico da psicanálise, defende que todo o crescimento é o fruto de uma mudança catastrófica. Esta consiste numa experiência emocional vivida como break up (rutura), break down (colapso), breakthrough (avanço) ou break in (implosão). De acordo com autor, o desenvolvimento é o resultado de um período (mais ou menos longo) de desestabilização interna sentida como momento de dúvida e de desorientação (que em linguagem psicanalítica corresponde à passagem da posição depressiva à posição esquizoparanoide; D -> Ps), para logo procurarmos um novo equilíbrio interno, uma nova organização da nossa personalidade (Ps -> D). A oscilação contínua entre estes dois estados (D <-> Ps) é a fonte da nossa criatividade e do nosso crescimento mental, promovendo a contínua transformação dos nossos estados internos.
Desde sempre a arte é testemunha do operar destes mecanismos. São inúmeras as descrição destes momentos de inspiração, em que o artista se retira e entra em comunhão com o seu inconsciente, para posteriormente buscar uma forma artística que contenha e cristalize estes conteúdos emotivos.
Esta crise libertou-nos dos nossos velhos hábitos e compele-nos a meter em discussão quem somos. Está-nos a ajudar a reconhecer o quão imprescindíveis são o contacto físico e a proximidade emotiva ao invés de investirmos o nosso tempo alimentando relações digitais e tecnológicas, as mais das vezes criando alter egos virtuais muito distantes do nosso verdadeiro self.
Rendendo estéreis a propaganda e o controlo da opinião publica, este surto permitiu-nos também de meter em evidência a incapacidade dos políticos e das políticas de defenderem o interesse comum da sociedade. Países como os Estádios Unidos da América que retiraram fundos de instituições de pesquisa de vírus emergentes como o CDC (Center for Desease Control and Prevention), que fecharam hospitais rurais e cancelaram o Obama Care que permitia à população menos abastada de aceder aos cuidados mínimos de saúde, deixaram milhões de pessoas à mercê da pandemia sem a possibilidade de aceder a um tratamento médico.
Graças a esta crise voltámos a ver peixes a nadar nos canais de Veneza, a avistar golfinhos nos maiores portos da Itália e assistimos com surpresa ao regresso de animais selvagens nos parques e avenidas das nossas cidades. O clima está-se regenerando e a fauna retorna a ocupar os espaços outrora roubados, obrigando-nos a refletir – mais do que os corajosos esforços de Greta Thunberg – sobre os temas ecológicos tão urgentes quanto menosprezados pelos principais governadores. E assim, temos ponderado sobre a nossa pegada ecológica, os efeitos do aquecimento global, a poluição da nossas cidades, o mal tratamento resultante da criação intensiva de animais e acima de tudo sobre a nossa procura espasmódica de bens de consumo, resultantes de um sistema capitalista à beira do colapso, porque prestes a exaurir os recursos do planeta.
Sobretudo, este isolamento social, confronta-nos com o narcisismo e o egocentrismo dominantes nas consciências hodiernas, revelando a importância do outro e da comunidade, trazendo-nos exemplos diários de altruísmo e de solidariedade social.
A suspensão do tempo despiu-nos das nossas crenças, dos nossos dogmas, das nossas máscaras e, face ao risco real da morte, redescobrimos a beleza e o sentido profundo nos pequenos gestos da nossa vida. Seguramente no final desta crise, um passeio pela praia, vaguear por um parque ou simplesmente um café com um amigo numa esplanada da cidade terão um valor inimagináveis antes.
Neste momento de quarentena entendemos também a importância da arte e dos artistas, que nos ajudam a iluminar as partes mais ignotas do nosso self, interrogando-nos com o objeto artístico. A produção de uma obra de arte implica sempre a transformação da matéria, a síntese de estados não integrados, uma criatividade na procura de novas formas e de novas linguagens. Então deixemos que a arte seja a nossa bússola, nesta viagem interna à descoberta de nós mesmos.
Este vírus pode não nos contaminar, mas irá seguramente matar as nossas preconceções sobre quem somos, sobre os demais e sobre o mundo que nos rodeia. Depois dele já não seremos os mesmos de antes. Cabe a nós aproveitar esta oportunidade para decidir o que virá depois. Eu estou confiante que será a nossa melhor versão.


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