Oh Portugal, porque me queres tão mal?
Meu querido Portugal, sei que já recebeste cartas antes e nunca respondeste. Ma têm sido dias difíceis e tento acertar as contas com as mágoas do passado. Começo por dizer que te amo, porque é sempre melhor começar a resolver os problemas do coração com a devida distância.
Perco-me nas ruas de Lisboa e encontro-me no teu fado. Tenho as raízes no Alentejo e trago a alma queimada no teu sol. És a minha voz e a minha poesia. Sou grave e sério como tu, prezamos o nosso silêncio. Mas sinto que esta nossa zanga já se tornou mais um hábito, do que uma vontade do ser, e por isso já era hora de assumir que ultimamente não falamos mais.
Sei que estás em crise e que quando um tenta lidar com as suas fragilidades não tem cabeça para os demais. Mas mesmo assim, parece-me que já não nos olhas com atenção. Nós também estamos em crise! Cada um sozinho com a dor e a delícia de ser quem é, como diria Caetano Veloso. Mas nunca nos devemos esquecer que tudo que nós temos é nós, como canta Emicida outro artista brasileiro.
Não é uma coincidência que os momentos de crise sejam os que nos revelam a importância dos demais. São precisas duas mentes, para conter os medos que, por vezes um coração só não consegue suportar - como defende Bion - um famoso psicanalista britanico. Será difícil sair desta crise ilesos sem qualquer ajuda. É o tempo da mudança catastrófica, para citar o mesmo autor, momento no qual ou nos encorajamos a evoluir juntos, ou do qual sairemos mais sós e deprimidos.

Eu estou a fazer a minha parte com esta carta. Tu do teu lado, vê lá se reconheces a importância da arte como instrumento de cura - para que a comunidade elabore o seu luto - e por isso é fundamental o apoio de estado nesta área essencial da sociedade. Tenta também fazer auto-reflexão: esta coisa de andares por aí montar a zanga das pessoas para obter consenso eleitoral ou manipular os medos do povo para ter audiência nos jornais, não me parece um gesto bonito... e tu que sempre foste tão íntegro. Talvez por isso te vejo mais ansioso, dado à comida e ao álcool para tentar preencher esse vazio da alma. Pára de remoer no passado: olha para o futuro! Lá fora tens uma terra que te ama (e que maltratas) tens amigos e possíveis amantes com os quais crescer na diversidade. Descobre com a sustentabilidade a valorizar os recursos que já tens e menosprezas. Acima de tudo - querido país - não nos deixes sozinhos no momento de aflição. Sempre me orgulhei de ser fruto de uma revolução dos cravos, mas desde então sinto que nos desencontrámos. Por isso estende-nos a mão e repara essa distância, para manter viva a nossa relação. No mínimo oferece-nos um real apoio médico, social e agora sobretudo psicológico. Já nos afastámos por mais de uma década. Parti por amor, voltei pelo mesmo motivo. Os meus sonhos voam alto e seria grato de vê-los crescer perto de ti. Aguardo com esperança a tua resposta. Como diria o psicanalista e escritor português Eduardo Sá: o segundo grande desafio da vida é encontrar o grande amor, o primeiro nunca perder a esperança de o encontrar.




Gui, está brutal. Posso partilhar? Beijinhos