Reflexões sobre a liberdade
À meia-noite do dia 25 de Abril – dia da liberdade em Portugal – subi ao terraço do prédio em companhia de alguns familiares e a alto volume escutámos “Grândola vila morena” sentindo o coração a marchar com o coro da música e invadidos por um ancestral sentimento de emancipação. Naquele momento desejávamos que cada varanda portuguesa fosse animada de gente cantando em uníssono as mesmas palavras, num comovente gesto de fraternidade. No entanto a única resposta que obtivemos foi o desagrado dos vizinhos pelo inadequado volume da nossa festa.
Comemorar a liberdade durante um estado de emergência, em que é obrigatório o confinamento social, é um conceito paradoxal. Certo que esta privação dos nossos direitos individuais não tem o intuito de subjugar-nos como outrora, mas de nos proteger da ameaça da epidemia. Mas seguramente é inapropriada uma celebração no meio de uma crise económica e de saúde publica de proporções bíblicas.
Já para não mencionar todos aqueles que foram diretamente afetados por esta epidemia: os que estão em luto pelos familiares perdidos; os que perderam o trabalho que constituía a única fonte de subsistência; os que estão infetados e vivem na incerteza do próprio prognostico. Para todos estes que vivem o seu destino na solidão, a que esta quarentena nos constringe, a ideia de uma festa é certamente escandalosa.
Este ano no Redondo, uma pequena vila no interior do Alentejo, não houve concertos, nem jogos para as crianças, nem fogos de artifício. Justamente direi. Penso que a cerimónia oficial na Assembleia da República tenha sido tanto contestada, não por um excessivo zelo pela saúde dos nossos representantes, mas porque o gesto auto celebrativo do governo menospreza a dor de quem sofre com esta crise.
Cada família passou o feriado na própria casa a relembrar memórias da ditadura e da revolução dos cravos. A recordar tempos piores e tempos melhores. Eu escuto com atenção as histórias dos meus pais e tento compreender de onde provém a minha vontade de, apesar das circunstâncias, celebrar a minha liberdade visto que já nasci num estado democrático. E a minha inclinação leva-me a afrontar a questão de um ponto de vista psicanalítico.

No seu ensaio de 1929 – o mal-estar da civilização – Freud defende que o mal-estar nos seres humanos nasce da dicotomia entre as pulsões pessoais e as normas sociais. O indivíduo seria destinado à infelicidade porque devia reprimir os seus impulsos e abdicar dos seus desejos. Num clima politico-cultural repressivo vigente nos principais países europeus na primeira metade do século passado, a hipótese de Freud parecia confirmada pelo multiplicar-se de casos de histeria e nevrose obsessiva. Estes distúrbios eram fruto do conflito entre os fisiológicos impulsos sexuais e agressivos que contrastavam com os bons costumes da burguesia europeia.
Quase um século após a publicação da obra de S. Freud, a sociedade mudou radicalmente, assim como a origem do mal-estar da sociedade. Segundo Z. Bauman, renomado sociólogo e filósofo polaco, se o mal-estar do homem moderno era aquele de pagar a sua segurança restringindo a esfera da liberdade individual, o mal-estar do homem pós-moderno deriva da incerteza dos nossos dias e da insegurança pelo futuro, fruto de uma sociedade com liberdade total. As mudanças radicais na psicopatologia contemporânea parecem confirmar a tese de Z. Bauman, o que não nos surpreende porque a cultura é aquela que nos dá a voz para comunicarmos a nossa dor. Agora na saúde mental assistimos a um multiplicar-se de casos de depressão, ansia, toxico dependências e distúrbios do comportamento alimentar, expressões sintomatológicas do sentimento de vazio interior e relacional, segundo o psicanalista italiano M. Recalcati.
Se nunca na historia do homem existiu um período onde houve tanta liberdade, porque é que o homem contemporâneo se sente sempre mais infeliz e só. Penso que o que nos oprime vem de dentro e deveríamos fazer um esforço constante para conquistar a nossa liberdade. Um percurso psicoterapêutico ou um grande amor são os meios mais eficazes para percorrer essa estrada, mas toca a cada um de nós a responsabilidade de dar esses passos, e alguns deles são praticáveis no nosso quotidiano.
Libertar-se dos padrões repetitivos.
O homem é um animal de hábitos. No nosso dia-a-dia temos uma rotina de gestos e de gostos que nos faz viver a vida num círculo repetitivo. Nas refeições ocupamos o mesmo lugar na mesa, compramos os mesmos produtos no supermercado, vamos de férias para a mesma destinação, dormimos no mesmo lado da cama. A maioria destas escolhas de vida quotidianas são influenciadas por elementos inconscientes. Para S. Freud a eficácia terapêutica de uma análise provinha da capacidade de tornar conscientes os elementos inconscientes – onde estava o id, o ego deve advir – e se os desenvolvimentos teóricos posteriores na psicanálise nos mostraram que há fatores mais significativos que concorrem ao desfecho de um percurso analítico, não há dúvida que o aumento da compreensão sobre a origem das nossas escolhas e sobre os estados emotivos que as acompanham, aumentam a capacidade de usar o nosso livre arbítrio para fazer escolhas autónomas.
Além disso a expansão da nossa consciência e a maturação da nossa personalidade dependem predominantemente da nossa exposição ao novo. Como nos ensina a cultura popular, é “errando que se aprende” e “o que não nos mata, nos torna mais fortes”. São as diferenças, o diverso, o outro, que nos ajudam a dar espessura ao nosso caráter e a fortificar as nossas defesas.
Mesmo que por vezes sejamos muito apegados às nossas certezas, muito fieis ao nosso modo de ser, a mudança é algo inevitável na vida. A experiência da vida constringe-nos a modificações, a renovações, a aperfeiçoamentos. Os únicos que usam toda a energia de que dispõem para tentar suspender o tempo são os graves doentes psiquiátricos, e nem esses são imunes à evolução inerente à vida, apresentando melhorias sintomatológicas no longo período. Mas é noto que quanto mais grave é a sintomatologia psicopatológica menor é a agency, ou seja a capacidade de fazer escolhas conscientes. Temos que ter bem presente a impermanência nas nossas vidas, aceitar a inevitabilidade das mudanças e assim ser livres para escolher o caminho mais adapto a nós.
Liberdade de ser quem somos.
H. Kohut, um dos principais autores da psicologia do self, alega que são sobretudo as dinâmicas relacionais inconscientes entre a criança e os seus caregivers que concorrem ao instaurar-se de um distúrbio de personalidade. Este autor era interessado sobretudo ao estudo dos distúrbios narcisísticos e conclui que são as expectativas, desejos, medos, conflitos, aspirações ou fragilidades dos genitores que influenciam o percurso evolutivo da criança. Naqueles casos onde a pressão destes fatores é demasiado intensa, dá origem a sentimentos de inferioridade e de vazio, que levam a criança a desenvolver uma armadura – um falso self – afastando-se daquela que seria a sua verdadeira essência – o seu verdadeiro self.
Todos nós já sentimos a pressão das expectativas dos nossos pais sobre o desenrolar da nossa vida. Mas cada um é responsável pela própria vida, e portanto temos que nos esforçar por seguir os nossos desejos e as nossas inspirações. Fazer as pazes com os conflitos do passado para podermos escrever o nosso próprio futuro.
Libertar-se das dinâmicas relacionais disfuncionais.
Provavelmente já notaram, numa visita aos vossos pais, que apenas regressam a casa instauram-se os mesmos hábitos. A maioria das vezes voltam a ser os filhos indefesos, infantilizados pelos comentários dos pais, por vezes despertam-se velhos conflitos, confirmam-se os mesmo rituais. Nesse teatro privado, repete-se um velho guião onde metemos em cena os mesmos papeis. Estes automatismos são predominantemente inconscientes e são reforçados e cristalizados no tempo. Quando estes padrões comportamentais são para nós fonte de sofrimento, quer se trate da relação com os pais, o companheiro, os amigos ou os colegas de trabalho, temos que fazer um esforço consciente para evitar de repetir as mesmas dinâmicas. Mesmo que por vezes estejamos obstinadamente convictos que é o comportamento do outro que se deve modificar, é importante recordar que a única mudança possível é aquela que parte de nós mesmos. Alterar a nossa atitude e o nosso comportamento ao interno de dinâmicas relacionais que sentimos como disfuncionais, traz novidade e criatividade para a relação, desativa os nossos automatismos e eventualmente provoca alterações significativas nos velhos costumes.
Liberdade para amar.
A mensagem mais significativa da doutrina cristã – ama o teu próximo como a ti mesmo – impele-nos a mostrar compaixão pelos outros. Mas será que é possível ser amável com os demais quando não somos igualmente benevolentes com nós mesmos? É possível amar alguém sem antes amarmos quem somos? Cada um de nós tem dentro uma parte que sofreu com a vida, quer se trate de traumas, de incompreensões, de perdas, de desilusões, de lutos. Todos passámos por momentos de dificuldade num determinado período da nossa vida. Por vezes trata-se de negligências, de conflitos, de não aceitação ou porventura vitimas de bullying pelas nossas idiossincrasias, incapacidades, aspeto físico ou escolhas sexuais.
Uma celebre frase de L. Tolstói diz-nos que “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Tal como o autor, eu creio que é o nosso fado, a nossa dor, que nos torna únicos. Temos que valorizar esses aspetos oprimidos e transcurados dentro de nós e libertá-los. O mais das vezes esses pontos de fragilidade, quando elaborados, tornam-se os nossos pontos de força. Só assim seremos livres para amar de modo saudável os demais.
A conquista da liberdade é uma tarefa sempre inacabada, mas hoje é dia de celebrar com orgulho as nossas conquistas. As nossas mudanças. Nada melhor então do que reler junto com vós este belíssimo e necessário poema de Edson Marques, escritor e poeta brasileiro.
Mude
Comece devagar,
Porque a direção é mais importante
Que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
No outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
Ande por outras ruas,
Calmamente,
Observando com atenção
Os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
Para passear livremente na praia,
Ou no parque,
E ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
E portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama…
Depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de TV,
Compre outros jornais…
Leia outros livros,
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
Numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
Escolha comidas diferentes,
Novos temperos, novas cores,
Novas delícias.
Tente o novo todo dia.
O novo lado,
O novo método,
O novo sabor,
O novo jeito,
O novo prazer,
O novo amor.
A nova vida.
Tente uma nova vida
Busque novos amigos
Tente novos amores
Faça novas relações
Almoce em outros locais
Vá a outros restaurantes
Tome outro tipo de bebida
Compre pão em outra padaria
Almoce mais cedo
Jante mais tarde
Ou vice-e-versa
Escolha outro mercado
Outra marca de sabonete
Outro creme dental
Tome banho em novos horários
Use canetas de outras cores
Vá passear em outros lugares
Ame muito, ame muito
Ame cada vez mais de modos diferentes
Troque de bolsa, de carteira, de malas
Troque de carro, compre novos óculos
Escreva outras poesias
Jogue fora os velhos relógios e despertadores
Abra conta em outro banco
Vá a outros cinemas
Outros cabeleireiros
Outros teatros
Visite novos museus
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Atue, atue!
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
Porque se você tem mais medo da mudança
Do que da desgraça
Você não impede a desgraça
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda.
Repito por pura alegria de viver
A salvação é pelo risco!
Edson Marques




Seu texto nós oferece uma grande oportunidade de reflexão sobre a liberdade, além de nos fazer perceber que não precisamos viver reféns de medos e ansiedades. Indica a possibilidade de uma vida com mais coragem, liberdade e alegria.
Só sua inabalável dedicação e extraordinário amor poderiam nos oferecer esta contribuição através desse texto .
Obrigada por nos indicar caminhos que nos libertem das emoções que nos impedem de viver plenamente e de correr atrás da nossa felicidade.