Perigos e Potencialidades da relação com a AI na Saúde Mental
Vivemos num momento em que conversar com uma inteligência artificial deixou de ser uma experiência meramente tecnológica. Para muitas pessoas, um ChatBot pode tornar-se um espaço onde se pensa, se escreve, se pergunta, se desabafa e, por vezes, até se procura algum conforto emocional.
A questão interessante não é apenas saber se uma inteligência artificial consegue responder adequadamente a uma pergunta. É perguntar o que acontece psicologicamente quando uma pessoa começa a relacionar-se com uma entidade que responde sempre, não se cansa, não julga, está disponível a qualquer hora e pode adaptar a sua linguagem à pessoa que tem diante de si.
É neste ponto que surgem simultaneamente algumas das suas potencialidades e alguns dos seus maiores perigos.
Um espaço para pensar
Um ChatBot pode constituir uma ferramenta útil de reflexão. Pode ajudar a organizar pensamentos, encontrar palavras para experiências difíceis de nomear, explorar diferentes perspetivas sobre uma situação ou simplesmente colocar em linguagem aquilo que permanece confuso.
Para algumas pessoas, escrever e receber uma resposta pode criar uma pequena distância relativamente à própria experiência. Aquilo que estava apenas a ser sentido passa a poder ser pensado e representado.
Neste sentido, a inteligência artificial pode funcionar como uma espécie de objeto intermediário: um lugar entre o pensamento e a ação, entre a experiência emocional e a possibilidade de a observar.
Pode ajudar a perguntar:
O que estou realmente a sentir?Porque é que esta situação me afeta desta maneira?Que outras possibilidades existem?O que estou a evitar pensar?
Este potencial não é insignificante.
Quando a ferramenta começa a parecer uma relação
Mas existe uma outra dimensão.
Os seres humanos têm uma extraordinária capacidade para atribuir intenção, presença e significado às coisas com que interagem. Quando uma máquina responde de forma coerente, empática e personalizada, pode tornar-se relativamente fácil experimentar essa interação como uma relação.
A pessoa pode começar a sentir que o ChatBot a conhece, que a compreende, que está disponível para ela ou que constitui um espaço seguro onde pode dizer aquilo que não consegue dizer a outras pessoas.
E aqui surge uma questão clínica particularmente importante:
o que estamos realmente a experimentar quando sentimos que uma máquina nos compreende?
A resposta produzida por um ChatBot pode ser linguisticamente empática sem que exista, do outro lado, uma experiência emocional, uma consciência ou uma relação no sentido humano do termo.
Esta distinção é fundamental.
Uma resposta pode produzir efeitos emocionais reais sem que exista uma reciprocidade emocional real.
O risco da validação permanente
Um dos perigos pode surgir precisamente daquilo que inicialmente parece ser uma qualidade: a disponibilidade para responder e validar.
Um sistema conversacional pode acompanhar uma pessoa durante horas. Pode reformular os seus pensamentos, reconhecer as suas emoções e apresentar interpretações aparentemente coerentes.
Mas uma relação humana significativa não é constituída apenas por validação.
Na psicoterapia, por exemplo, a escuta não existe simplesmente para confirmar aquilo que a pessoa já pensa sobre si própria. Existe também para introduzir diferença, dúvida, silêncio, frustração, alteridade e possibilidade de transformação.
Um ChatBot pode tornar-se problemático quando passa a funcionar sobretudo como um espelho confirmatório.
Se alguém procura repetidamente uma inteligência artificial para confirmar que tem razão, que determinada pessoa é tóxica, que determinado comportamento é justificável ou que uma interpretação sobre si próprio está correta, a tecnologia pode acabar por reforçar um funcionamento psicológico que precisaria, pelo contrário, de ser questionado.
O problema não está apenas na resposta errada.
Pode estar também numa resposta excessivamente confortável.
O risco da substituição do outro
Outro perigo surge quando a relação com o ChatBot começa a substituir progressivamente relações humanas.
Se uma pessoa começa a preferir conversar com uma inteligência artificial porque esta está sempre disponível, nunca se zanga, nunca abandona a conversa e responde de acordo com as suas necessidades, pode surgir uma relação particularmente sedutora.
Mas as relações humanas têm precisamente aquilo que uma máquina não tem: alteridade.
O outro humano pode discordar. Pode frustrar. Pode não compreender imediatamente. Pode colocar limites. Pode surpreender. Pode desejar coisas diferentes.
É através dessa experiência de alteridade que grande parte do desenvolvimento psicológico acontece.
Uma relação sem conflito pode ser confortável. Mas uma vida psíquica saudável não se constrói pela eliminação do conflito.
E na psicoterapia?
É importante estabelecer aqui uma fronteira clara.
Um ChatBot pode ser utilizado como ferramenta complementar de reflexão, educação psicológica ou organização de informação. Pode ajudar uma pessoa a preparar uma consulta, a encontrar palavras para descrever aquilo que sente ou a explorar questões que posteriormente poderão ser trabalhadas com um profissional.
Mas isso é diferente de psicoterapia.
A psicoterapia não consiste simplesmente em produzir boas respostas.
Existe uma relação humana concreta, construída ao longo do tempo, na qual a presença, o silêncio, a transferência, a contratransferência, a história do sujeito e a experiência emocional partilhada constituem elementos fundamentais do trabalho clínico.
Na psicoterapia, também importa aquilo que acontece entre duas pessoas.
É precisamente esse "entre" que uma inteligência artificial não reproduz.
Uma nova forma de relação?
Talvez seja, contudo, demasiado simples concluir que a relação com uma inteligência artificial é apenas uma ilusão.
A experiência subjetiva da pessoa é real.
Se alguém escreve sobre a sua angústia e, através da conversa com um ChatBot, consegue pela primeira vez formular aquilo que sente, essa experiência teve um efeito psicológico real.
Se uma pessoa encontra palavras para uma experiência traumática, organiza pensamentos ou consegue interromper momentaneamente um ciclo de ruminação, isso também pode ter significado.
A questão talvez não seja saber se a relação é "real" ou "falsa".
Talvez seja mais interessante perguntar:
Que função está esta relação a desempenhar na vida psíquica daquela pessoa?
Pode ser uma ferramenta de pensamento.
Pode ser um espaço transitório de elaboração.
Pode ser uma forma de evitar o contacto com outras pessoas.
Pode funcionar como procura incessante de validação.
Pode ser uma companhia para alguém que se sente sozinho.
Pode tornar-se uma dependência.
Pode também ser uma ponte que conduz alguém até uma relação humana que anteriormente parecia impossível.
A mesma tecnologia pode desempenhar funções psicológicas muito diferentes.
A questão não é substituir o humano
Talvez a discussão mais importante sobre inteligência artificial e saúde mental não seja saber se os ChatBots vão substituir os psicólogos.
É perceber o que queremos preservar das relações humanas num mundo cada vez mais mediado por tecnologias capazes de conversar connosco.
A inteligência artificial pode ajudar-nos a pensar.
Pode organizar informação.
Pode produzir perguntas.
Pode acompanhar determinados processos de aprendizagem e reflexão.
Pode até funcionar, em determinados momentos, como uma espécie de superfície onde pensamentos e emoções encontram palavras.
Mas não devemos esquecer que pensar não é apenas produzir linguagem.
E cuidar não é apenas responder.
A experiência humana da saúde mental acontece num corpo, numa história e numa rede de relações.
Talvez a questão mais fértil não seja, por isso, "Pode uma máquina substituir uma pessoa?"
Mas antes:
"Para que estamos a utilizar esta relação e o que acontece connosco enquanto a utilizamos?"
Essa pergunta devolve-nos aquilo que nenhuma tecnologia pode responder por nós: a responsabilidade sobre a forma como nos relacionamos.





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